A maior barreira de quem tenta sair das dívidas no Brasil não é a falta de dinheiro. É não saber por onde começar. Em um levantamento com 2.186 pessoas endividadas, feito entre junho e setembro de 2026 pelo programa de negociação de dívidas e educação financeira Viva Sempre Com Dinheiro, 44,6% apontaram essa como a maior dificuldade. A falta de dinheiro para a entrada de um acordo aparece em segundo, com 30%.
Não é um público de baixa renda: 39% têm renda familiar acima de 10 mil reais por mês e 57% devem mais de 50 mil reais. O cartão é a dívida que mais incomoda para 68%.
O país chegou em agosto de 2026 a 83,9 milhões de pessoas com o nome negativado, o maior número da série histórica do Mapa da Inadimplência da Serasa, depois de 20 meses seguidos de alta. O recorde veio logo depois de uma sequência de mutirões: o Feirão Limpa Nome, de fevereiro a abril, e o Novo Desenrola Brasil, que encerrou as adesões em 31 de agosto. Só em agosto foram 11,8 bilhões de reais em descontos concedidos.
Os números indicam que o problema volta. Quatro em cada dez inadimplentes de hoje já estavam negativados há dez anos, segundo a Serasa: 34 milhões de pessoas. O Desenrola Brasil de 2023 renegociou cerca de 53,2 bilhões de reais em dívidas de 15 milhões de pessoas, e o número de negativados voltou a acelerar depois do fim do programa. "O mais difícil não é sair da dívida. É não voltar. É o que mais aparece em quem chega para ser atendido: negociou, limpou o nome e um ano depois está no mesmo lugar, porque o que gera a dívida continuou lá. A dívida é consequência", afirma Nádia Pace, auditora, contadora, consultora financeira e correspondente bancária.
"A pessoa não trava por falta de dinheiro. Trava por não saber a ordem das coisas", diz a especialista. Com 20 anos de mercado financeiro, ela já atendeu 20 mil pessoas e conta ter acumulado 2 milhões de reais em dívidas no próprio CPF, sem renda, no período em que viu os pais adoecerem.
A tese contraria o conselho mais repetido. "A dívida é consequência, não o problema. O problema é a ordem em que a pessoa tenta resolver", diz. "Quem começa pelo levantamento abre a lista, vê o tamanho da bola de neve e fecha. Por isso o mapa da dívida é o último passo, não o primeiro."
Bola de neve é a expressão mais repetida nas respostas abertas do levantamento. O custo explica: o rotativo do cartão para pessoas físicas fechou julho de 2026 em 15,02% ao mês, ou 436,15% ao ano, segundo o Banco Central.
O Método Viva Sempre Com Dinheiro, organizado pela especialista na ferramenta Mapa da Paz, inverte a sequência habitual em quatro passos: blindar a renda; fazer a rodada de negociação, por escrito e com protocolo; levar o cartão ao valor justo; e, só por último, fazer o raio-x da dívida. "Primeiro a pessoa protege o que entra. Depois negocia. O diagnóstico completo vem quando ela já consegue olhar o número sem travar", explica Nádia Pace.
Parte do que sustenta essa ordem está em regras que o endividado raramente conhece. Pela Resolução 4.549 do Conselho Monetário Nacional, de 2017, o saldo da fatura só pode ficar no rotativo até o vencimento da fatura seguinte; depois, tem de ser parcelado em condições melhores. Pela Lei 14.690, de 2023, nas operações a partir de 3 de janeiro de 2024, juros e encargos do rotativo e do parcelamento da fatura não podem passar do valor original da dívida. "Quem não conhece a regra paga mais e nem percebe. Quem conhece negocia de outro jeito, porque está em lei, não é favor", resume a especialista.
Sobre o tempo, o artigo 206 do Código Civil diz que a cobrança de dívida líquida prevista em contrato prescreve em cinco anos, e o artigo 43 do Código de Defesa do Consumidor limita a informação negativa em cadastro a cinco anos. "Dívida prescreve, mas não some. O que muda é a cobrança judicial e a negativação. O valor continua devido e pode ser cobrado por via administrativa", diz Nádia Pace.
Segundo ela, três medos concentram a paralisia: a penhora do salário, o nome negativado e a ligação de cobrança. No Tema 1.230 dos recursos repetitivos, julgado em setembro de 2026, o Superior Tribunal de Justiça fixou que a penhora de salário para dívida comum é excepcional, só dentro de processo judicial e sem comprometer o sustento. Ligação de cobrança e nome negativado não retiram valor algum do salário. "Ligação de cobrança não tira dinheiro de ninguém. O que tira é o tempo parado", afirma a especialista.
Duas ideias valem para quem está começando, segundo ela. "Negociar não exige ter dinheiro na conta para começar. Quem espera juntar o valor do acordo costuma esperar demais", diz. A segunda: "Dá para negociar mesmo em dia, mas sem esperar desconto grande. Redução expressiva o mercado só dá a quem está em atraso: é a regra de todas as instituições, não método de ninguém. E não é motivo para atrasar, é motivo para negociar com a regra na mão."
"Quem sabe como o jogo funciona dorme em paz", conclui Nádia Pace. "Isso tem ordem, tem regra e tem saída. Ninguém precisa resolver tudo hoje. Precisa dar o primeiro passo certo, e o primeiro passo não é a lista nem o acordo."
Metodologia: levantamento próprio do programa Viva Sempre Com Dinheiro, com formulário respondido por 2.186 participantes entre junho e setembro de 2026. A amostra é não probabilística e retrata o perfil de quem procura ajuda para negociar dívidas, não a população brasileira. Juros: Banco Central, séries 25477 e 22022, julho de 2026.
Sobre o programa: o Viva Sempre Com Dinheiro é um programa de negociação de dívidas e educação financeira para pessoas físicas e empresas, criado por Nádia Pace, auditora, contadora, consultora financeira e correspondente bancária. O programa reúne cerca de 1 milhão de seguidores no Instagram (@vivasemprecomdinheiro). Informações em https://lp.vivasemprecomdinheiro.com.br/?utm_source=dino&utm_medium=imprensa&utm_campaign=materia-pesquisa-2186.
Contato para imprensa: Nádia Pace, [email protected], (11) 99101-1528.
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